quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

_do breu à magia

)já diria Borges em seu jardim de veredas que se bifurcam; nada melhor para falar do tempo do que não o dizer(

Sussurros silenciosos saltam a seus ouvidos. Era o vento que lhe passava berrando uma taciturnidade mais que atordoante: assustadora; uma panapaná ao longe vazia movimentos disformes que causavam o vendaval calado – a ele, mais do que sonoro, era visível; muito mais que sensível, era palpável; um tornado vinha da direção das borboletas, elas não o preocupavam, a ventania era o que parecia de pior e de mais importante. Sua queda era involuntária, mas sabia que, ao final dela, sua vida seria mais instantânea que a de um hidroxônio. Sua queda. Sua. )por aqui, faz-se presente a insuficiência da linguagem oral( Ele sabia – sim sabia, todos sabem, inclusive você – que há vidas depois da morte. Crêem que já não é a primeira vez que ele cai; os testemunhos já o viram antes, caindo desse mesmo penhasco, um tiro certeiro para aquele lago logo ali embaixo. Morre. Renasce. Remorre. Rerenasce. – uma poesia concreta surgia – E assim durante muito tempo. Dizem que essa será a derradeira queda, uma taciturna e infeliz. Aí está sua razão, leitor. Você caia juntamente a ele. Você o via. Ele não. Você diria que é a primeira vez que caem em dupla. Os anciões do vilarejo mais próximo, em sua sábia esclerose, refutam qualquer idéia de primeirismos ou segundismos. Cansam-se de dizer: você sempre caiu com ele. s-e-m-p-r-e. A verdade já não é uma nesse lugar. Se você dizer o contrário, nada mais coerente será. Voltemos ao fato: ele cai. Por opção. Um panapaná borboleteia ao longe, causando um terrível furacão – ó, quanto exagero! quanto lirismo à toa!, diriam os poetas estadunidenses – uma mescla de barulho – quem diz que o silêncio é ausência de som, é surdo, diriam os velhos – com animalidade e destempero. Confirma a literatura local que borboletas arrevoando ao longe, atrapalhando em seu modo a queda de qualquer aventureiro ou místico, é sinal de apenas uma constatação: o suicida está a elucubrar sobre a vida e sobre seu destino. No caso, neste específico caso de agora – preste atenção no mito local, esse muito lhe diz –, o destino é aquele lago logo aqui. Bem aqui – pois é, o tempo gasto só para esse primeiro parágrafo já o faz aproximar do fim, o lago se aproxima. Ele cai. Você em complacência, acompanha-o.)aos movimentos seus não cabe ao texto aqui explicar. Você muito bem o sabe, não? O que iria eu fazer na mudança de suas ações? Você que diga a si próprio.(

Pois agora já tudo muito bem explicado está. O antes e o depois, contudo, em nada foram tocados. O penhasco do qual ele se jogou era deveras indescritível – como o mundo, digamos. o penhasco era o mundo, porque não? – e reconfortante aos casais que se apertam, ou aos sonolentos que gozam do sono, ou aos solitários que pairam ao horizonte, olhando sabe-se lá para o que exatamente – se lêem o céu, se o modificam, não o sei eu; sei que os dedos dos solitários brincam com o ar como se tocassem liras ou harpas ou violas ou pianos. esperam ouver uma música incompreensível. Sim, o penhasco traz uma visão eterna e infinitudinalmente maior que tudo que é o universo. Dizem os velhos esclerosados do vilarejo que de lá – e só de lá – pode-se ver o que há e o que não há, que de lá se vê o mundo, vê-se o não-mundo, vê-se o mundo-por-vir. Outros, céticos por sua vez, dizem que o mundo, o não-mundo e o mundo-por-vir só são visíveis nas águas do lago. Os poetas – assim como ele, esquecia-me de dizer – só vêem o mundo, o não-mundo e o mundo-por-vir quando penetram surdamente no reino das águas do lago. E só então. Aos lagos, poucas palavras poderia eu dizer, são simples como lagos são aqui no mundo de cá, molhadas, umas translúcidas, outras turvas, umas salobras, outras potáveis, uns lagos profundos, outros rasos. Esse em questão é – dizem – de águas profundas, de um fim que não existe – pois aí está o mundo! –, salobras e turvas, tão quanto o Ness, nada mais justo. Para que, pensa um suicida, saber eu quando me vou ao fim? para que sentir a dor precipitadamente quando sei que a dor será daqui a dois metros? pois essa dúvida, a possibilidade de saber que não sabemos de nada, de sentir o indefinido – como se só existisse isso no universo – é o que nos faz sentir o que chamam de paz. A sensação é incômoda – quem disse que era gostoso? – como é a da insuficiência, entretanto, as flores florescem e o que amofinava deixa de existir, o sentimento de poder ainda vagar e vagar, de poder nadar e nadar, de ter a possibilidade de ter possibilidades. Alguns plebeus testemunhos proferem que o vício do ele em suicidar-se vezes é o de poder sentir-se pacífico – e paz é liberdade, pois então! O corpo dele finalmente corta o lençol d’água da superfície, seus olhos se cerram, seus ouvidos já foram ensurdecidos pelo furacão do panapaná, sua boca nunca será aberta. Com um celeridade típica dos poetas, fica parado, não que isso signifique falta de movimento, por inércia, nada, recortando o caminho de todos os entes aquáticos, seres jamais vistos e inexplicavelmente amigáveis a ele – que passeia e só passeia. Faz um caminho novo, vai ao fundo – o que é “fundo”? um pé que não alcança o chão não sabe o que é fim se não sabe que haverá um, não é isso que dizem os acadêmicos? – ou àquilo que quer chamar de fundo, sente nada molhado, sente um arrepio correndo pelas costas, um fio de “aha! então é assim que se sentem os poetas!”. Um peixe que costumava se chocar com ele não passou nem perto nesse momento – mesmo o animal fazendo o caminho rotineiro de ida às borboletas, observá-las, senti-las )pois os animalejos são poetas também! e pensam e sabem e sambam e dançam sempre que um panapaná cria um redemoinho dessa grandeza( e retornando britanicamente no mesmo horário. Um vôo, ou ainda, um nado pleno, digno de ser o derradeiro dessa vida. Ele cai, sente-se no indefindo, e suspira como se tivesse acabado de ver pássaros voando no céu, como se passassem eles por nuvens, como que querendo chegar ao outro lado. Era um suspiro de proximidade, um suspiro dos que agem igualmente.

E você, pergunto eu. E você, que faz, mantenho a pergunta. Sei que não disse a si sobre a lagoa ao lado dessa. De fato, águas translúcidas, vê-se peixes, vê-se o fim. Paradisíaco. Ficou abismado, ein? Esqueceu de acompanhar ele? Não vai penetrar no lago assim como ele? Aquele lago ali é mais amigável, esse que ele pulou amedronta, sim. Um suicida não teme nada, a não ser a vida e o sentimento de vida, por isso escolhe o lago de águas turvas.

Ok, correto. Fique você em sua decisão, se acompanha os peixes ou se ele. Sinta-se como se estivesse em casa. Vou-me cair nessas águas nebulosas e obscuras – já ouço as borboletas dizendo vá, vá, caia, sinta. Mesmo retornando da morte em instantes, nunca mais serei o mesmo. A você, digo que cairei aqui num caminho sem vida e sem retorno.

Adeus!

2 comentários:

Guilherme Dearo disse...

Texto difícil...
Mas embora possa-se esmiuçar a questão do suicídio em seu texto, creio que é uma metáfora para algo além. Creio ser um texto metalinguistico, que trata da "libertação da arte" (se jogar do penhasco) e, como seu texto faz referência, "penetrar surdamente no reino das palavras"... É como uma comparação: do mesmo jeito que o fim é a morte, todo artista-escritor, almeja um fim, chegar "lá", para poder enfim descansar...

(seus textos são sempre enigmas! Ao invés de eu comentá-lo tenho que decifrá-lo! hahahaha)

Gostei e Abraços!

Anônimo disse...

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