segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

_o definido, o reflexo e o objeto

_hereditariedade

Meu pai dizia que somos, os homens, como ondas no mar.

Eu acho que nós não passamos de cristas de ondas do mar.

Quando era pequeno, achava que éramos crateras da Lua.

Meu filho, diz que somos




)pessoas, leiam o texto abaixo, esse daqui foi só uma brincadeira...(



O título anterior, _a história por Tertuliano Máximo Afonso, era falso e não condizia com a idéia original de Tertuliano Máximo Afonso, sentei-me ao lado dele para conversarmos um pouco sobre os S.C., cheguei à conclusão de que o título não era conveniente. Tertuliano Máximo Afonso nem sequer me pediu que alterasse, simplesmente o fiz por saber que ele é daqueles que não fala muito com você - ele fala e você escuta o que acha que é pra você. A alteração se fez necessária e agora uma explicação se pareceu ainda mais necessária. O título atual, _o homem que nunca haveria de ser duplicado, é uma referência ao livro do Saramago - ele, ele, sempre ele! - , _o homem duplicado, que esou lendo. Creio que o final do livro dele seja algo coerente com o que está sendo...ops...alterei o título novamente, o atual, _o definido, o reflexo e o objeto, traz consigo o livro do Saramago, e mais além, traz uma gradação - ou graduação? - indiscutível que o texto trabalha. Pois vejam vocês: nada é como aquilo que já se viu e vivemos como uma onda no mar, já diria Lulu Santos, e somos, nós, as ondas. Mentira.

Ei-lo:



Naquela casa logo ali, essa mesma na qual vossos olhos decidem repousar - não lho é engraçado? quase um ponto de apoio de seus olhos -, é naquela, justamente, essa aqui, que mora a família S. C., uma das mais filhosas e primosas que essa cidade já viu, decerto a seria, afinal já há algumas gerações em períodos pré-feudais ou até mesmo pré-romanos - os mais estudiosos não remontam tempos alguns -, o patriarca primordial, o Sursum Corda - daí o nome da família, se bem pôde notar, ao menos é o que alguns o dizem -, era algo próximo ao que tu, leitor, tens de Gêngis Khan: um puto pai, ou ainda, para melhor descrevê-lo e com palavras de menor pejorativação, um profissão procriador. Ao todo, estima-se que a cada tribo culturalmente diversa da última conquistada - ou simplesmente visitada -, nosso Khan queria pôr-se ao eterno procriando-se feito um animal - pois então! -, para tanto, não admitia, contudo, dois filhos em mesma tribo ou mesmo clã ou mesmo Império.

Pois o leitor que bem lê não se contenta com apenas uma constatação e cá lha vai - e os incrédulos céticos que decidam por não ler se assim lhos convier -: Sursum Corda, assim como Gêngis Khan, foi amaldiçoado pelo deus de maior poderança e maior liderança que havia; Guredaant: certa vez, conta-mo a lenda, Sursum Corda fez um pacto com Guredaant que, em troca de sua proteção e sua iluminação, Sursum Corda não poderia nunca procriar-se duplamente em uma mesma cidade tampouco poderia acompanhar seus filhos, caso o fizesse, haveria a promessa de fim do - estes que vos chamais - Mundos, ou, mais precisamente aos pragmáticos, realidades - apesar de mo ser mais amigável e correto chamá-las verdades -, promessa que nada os deuses fariam para cumprí-la, seriam os autores os próprios da família. Uma vez vistos um contra o outro, o embate seria de magnitude inimaginável.

Recomeço esse parágrafo parafraseando o anterior: pois então como hoje, precisamente nesse momento, enquanto vos falo da história dessa família, naquela casa logo aqui há toda a família unida sem haver nem sequer um terremoto ou um indício de fim do mundo? pois aguardem até o fim. Indiginado com sua sina e com seu infeliz ilimitado poder de liderança, Sursum Corda, em uma das tribos que procriava com o intuito único de manter-se ab aeternum, descobriu um deus, Acason, dos deuses, o mais metafísico - não estranheis, leitores, na época em questão, todos prumavam ao destino sobrenatural -, e a ele implorou favores e favores, pedia paz no mundo todo - mentira! orava por paz entre seus filhos, queria era seu bem mantido. Acason, o deus da certeza, podia dar-se ao luxo de quebrar os paradigmas divinos e conceder-lha a dádiva sem amaldiçoá-lo como forma de pagamento, não o fez, como bem o sabem. Desta vez, Sursum Corda e todos seus filhos perderiam a visão, mas não simplesmente cegados seriam, e sim sem olhos ou globos oculares, como quisereis, em seu lugar, passariam a ter um dispositivo divino que traria à visão dos S. C. o mundo todo falseado - do jeito que o é, decerto, porém copiado à mão pelo poder divino, ainda sim o faz uma cópia, e distorcida. Hoje podeis chamar de realidade virtual, apesar de o termo não se correlacionar plenamente ao fato. Ao lugar de verem-se uns aos outros, vêem-se uns os retratos dos outros, uma tradução divina que não é nada como a realidade em si. Felicitações aos S.C., olham-se, mas não se vêem: ao menos algo lhes é digno!

Então o que lhos digo é justamente isso: nesta casa ali que está em nossa frente moram os S. C., os herdeiros diretos de Sursum Corda, como sabe-lo eu? pois é de lá que saem os pseudo-cegos que rondam este mundo, que sabem ver o mundo de um jeito que os de cá não conseguem ver: em coisas banais, tais quais debates políticos em sua televisão, vêm algo que nunca nos imaginaria ver; mundos belos e justos em todos os discursos, vêem mentiras, pieguices, não crêem nos que lhes foi dito. Claro deve ser posto que os mundos a cada um representados pelos deuses são diferentes, como não os poderia? e que cada crítica, cada palavra que lhes saltam da boca são - e naturalmente as deveriam ser - diferentes e díspares. E únicas.

Como esperado, os S.C. tomam para si os poderes de persuasão de todos a sua volta. Houve tempos, quando ainda estavam dispersos e longes um do outro, que eram eles os reis, os déspotas, os maiorais - e mais morais - dos povos que lhes seguiam. Em realidade, não eram reis, eram mais e não o eram em sincronia. Quando os reis governavam, os S.C. governavam os reis, ditando-lhes ações, assim faziam também com todo o resto de seus próximos, as regiões, microespaciais, eram-lhes; por fins historiográficos, definiu-se como poderosos os Luises XIV, as Elizabeths I, os Joãos e Manueis, os Sebastiãos, os Carlos Magnos - afinal, sabe-se que a história é a estória dos vencedores, e os S.C. não teriam porque razão exiberem-se a ponto de mostrar sua maldição ao todo eterno que a história proporciona; dão-se como vencidos quando em verdade são os vencedores. Pois então seria pleonasmático dizer eu que toda a população mundial segue os ditames dos S.C.? disparate o seria, claro o é. Não é humanamente possível - e os S.C. até segunda ordem são considerados meros humanos amaldiçoados - governar todo e qualquer movimento ou decisão dos humanos, conhece-se que somos ariscos, não gostamos de ser guiados e cegamente dirigidos, temos ao fundo um sabor de revolta - por isso digo que todo homem é por excelência anarquista - que impede o total controle dos S.C. sobre nós. São eles, deveras, os guias, mas nós que ditamos os detalhes - ou creis tu que Nixon e todo o caso Watergate teria sido tramado pelos S.C.? decerto o caso foi de desvio indubitável e de egoísmo pleno: os homens precisam dos S.C., sua existência é modelo. Quem a eles seguir nenhum problema terá, será, como pequena desvantagem, um submisso com conforto para o eterno.

Seria chover no molhado, ainda, se dissesse eu que esses S.C. nada mais são do que cópias melhoradas, ou ainda, cópias atualizadas de Sursum Corda e de seus filhos? creio que não o disse previamente; a maior felicidade e orgulho dos S.C. é o progenitor, o patriarca de toda essa geração, a ele devem muito. Graças a isso, portanto, sua conduta sócio-política é-de se esperar que não tenha variado muito. Erra-se aí o descuidado, os tempos mudaram nesse século passado. Poderes políticos democráticos, avanços tecnológicos, a voz dos mudos; os S.C. tiveram a obrigação de alterar as suas formas de poder, sabiam que se não o fizesse perderiam a liderança e gradualmente perdoavam os que antigamente seriam dados como assassinos, assassinavam os que eram tidos como pacificadores, acariciavam os bolcheviques, beijavam os clássicos, glorificavam Henry Ford. Até que hoje mantem seu poder, de fato alterado, sob formas várias. É de se espererar, outrossim, que a família S.C. tenha crescido consideravelmente; se já a era enorme, hoje é ainda mais populosa - a maior que já houve!




Ah!!

Ah!!!

Reparai, estais prontos?! Lá vêm eles! Finalmente sairão, verieis essa espécie underground de que tanto falo! Lá vai, vem o primeiro )...minutos, horas quiçá, passaram-se até que o último integrante da família S.C. saisse,...(

Nossa! Posso jurar que vi com esse olhos que meus me são que havia um de vós lá, não! Olha bem, repara, há você, e você também! Quanta semelhança! deus que me é! Todos vocês lá estão!! São sósias, definitivamente! Quanta maravilha!

[A voz que não é de pessoa alguma]: )Num instante de loucura, o narrador olha para trás para comparar e comprovar a semelhança feia de tão grande que havia entre seus leitores e alguns dos S.C.. Agora está ele perplexo, olhando para o sul, nota-se sozinho - mas jura poder ouvir vozes que repetem as suas, um eco em timbres e tons diversos. Fecha os olhos como que buscando fugir do momento de negação pelo qual passou. Ao abrí-los, percebe: ele está entre - e é um - S.C.. Sozinho e rodeados de outros parentes, decide rumar para seja lá onde...(



)...pois agora, ao cabo do conto, esse o é levado, arrastado e chutado pela plêiade da família S.C., que anda para o nada.(

4 comentários:

Guilherme Dearo disse...

Gostei mesmo, Borbas! Apesar de você disser que não era AQUELE conto que você queria escrever, mesmo assim é um dos melhores, ao lado do da pena.

Meu comentário completo eu te mandei por email! do yahoo.

Abraços!

Letícia disse...

Adorei! Adorei! Adorei!

Essa coisa "familiar" do começo me lembrou muito do Gabriel Garcia Marquez mas depois a história tomou um rumo totalmente difernte....

Embora eu ache seu jeito de escrever um pouco complicadinho, tipo quando vc inverte demais a ordem dentro dos períodos, a história é uma delícia! A idéia por trás da coisa é ótima e é um conto muito bom de ler. Vc podia até desenvolver isso num livro sabia?

"dos deuses, o mais metafísico" é muito engraçado!!! Vc devia apostar nesse tipo de humor.

Ricky disse...

nem me avisa que tem texto novo hein?!?agora só avisa o gui....tsc tsc

dps leio e comento os dois!!!

)borbas( disse...

S.C. = Senso Comum